segunda-feira, 20 de abril de 2015

VIOLÃO FEITO NO BRASIL ESTÁ EM EXTINÇÃO

Olá, pessoal... 

A realidade dos instrumentos fabricados no Brasil está cada vez mais escassa, acompanhem esse post com uma matéria muito interessante sobre a realidade da indústria brasileira de instrumentos musicais.



(Violões da Rozini, em São Paulo: empresa é uma das duas últimas a fabricar o instrumento no Brasil)


A decadência da indústria brasileira de violões ganhou velocidade há cerca de dez anos, coincidindo com a disparada na importação de instrumentos de corda fabricados, sobretudo, em países asiáticos. Em 2007, chegaram ao Brasil 740 mil unidades (descontados violinos, pianos, guitarras, contrabaixos e cravos), quase o dobro do ano anterior. Em 2014, foram 1 milhão .

Nesse intervalo, a Rei dos Violões, dona da marca Tonante e que chegou a produzir 16 mil peças por mês segundo um ex-funcionário, desapareceu.

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 (violão Tonante)


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 (violão Tonante)

A Giannini, de onde saíam 10 mil instrumentos por mês nos anos 1980, desde 2008 importa mais que do produz, mesma estratégia adotada pela Del Vecchio, que no auge fabricou 2 mil peças ao mês. Hoje, ambas fazem no total uns 250 violões a cada 30 dias, mas de maneira artesanal,  voltados ao público profissional.
 
Angelo del Vecchio, neto dos fundadores da marca, até já alugou sua fábrica para uma empresa de transmissões de veículos. Ficou apenas com a loja na rua Aurora, no centro antigo da capital paulista, onde vende os instrumentos fabricados sob demanda. 

"Eu não tenho mais expressão", diz Del Vecchio, neto dos fundadores da marca.

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(Violão Del Vecchio)

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(Violão Del Vecchio)

Última das grandes a produzir em larga escala no Brasil, a Di Giorgio jogou a toalha na virada de 2013 para 2014. Mas parcialmente, ressalva Guilherme Bunger, diretor comercial, já que, embora a finalização do instrumento da empresa seja feita na China, os braços e corpos são produzidos por aqui.

"A Di Giorgio conseguiu fazer o acabamento na China sem perder a alma dela que são as madeiras e a forma de construção. A sonoridade continua a mesma e houve melhora no acabamento. Começamos a competir com os demais concorrentes [importados, em sua maioria] mais de igual para igual", afirma Bunger.

(violão Di Giorgio)

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 (violão Di Giorgio)

Devagar e na contra-mão

Atualmente, o parque industrial brasileiro de violões se restringe a duas fábricas. Surgida das ruínas da Rei dos Violões, a Clave Sonora produz 2,2 mil peças por mês, dez vezes mais do que quando começou, em 2007, mas 14% da capacidade da empresa da qual herdou ferramentas e funcionários.

"Compramos os equipamentos com as verbas rescisórias e envolvemos a mão de obra que ficou ociosa [com o fim da Rei dos Violões]", afirma Hernandes Coelho, um dos sócios e fundadores da Clave Sonora. "Viemos com uma proposta focada na linha de aprendizagem.  Não consigo muitas vezes ter o preço tão bom como o do chinês, mas eu tenho um preço muito bom. Existe espaço no mercado nacional para produto de qualidade."


(Clave Sonora: conheça o processo de fabricação de um violão)

Após um 2014 difícil e um início de 2015 fraco, entretanto, a empresa desacelerou os investimentos, mesmo com a disparada do dólar, que favorece a produção nacional. Coelho acredita que a situação é passageira, mas diz que, por "segurança", freou projetos. "Eu tinha alguns planos para expansão. O que eu não parei, estou indo mais devagar. Eu vinha dando pernadas e agora estou dando passinhos curtos", diz.

A Rozini responde pelo restante da produção local de violões, de cerca de 1 mil unidades por mês, feitas em dois galpões sem identificação numa rua próxima à Marginal Tietê, na zona norte de São Paulo. Nascida em 1996, a empresa também aproveitou máquinas e funcionários das fábricas nacionais que foram desativadas, e escapou por pouco ao maremoto da importação. Para tanto, agarrou-se à viola e ao cavaquinho, menos fabricados lá fora do que o violão. 

 
 (Fábrica da Rozini)

"A gente sobreviveu a esse período mais difícil da briga com a China com a linha de cordas de viola caipira. O violão estava dominado", conta André Mattos, diretor de marketing da Rozini. "Quase que a gente fecha também."

Com a transformação das marcas centenárias brasileiras em importadoras, a Rozini viu espaço para entrar no mercado de violões com o argumento de ser uma das únicas fabricantes brasileiras. Nos últimos cinco anos, o instrumento saltou de 5% para 30% do total de unidades produzidas pela empresa, diz o presidente, José Roberto Rozini.

"Estou indo na contra mão, mas eu não viso à grande produção. Viso mais a uma satisfação do meu cliente. Eu prefiro fazer menos peças e fazer  uma peça melhor e trabalhar realmente com a satisfação do cliente", diz Rozini, um paulistano com ares de interior.

 (Violonista Junior da Violla testa o violão ROZINI Studio RX 210)
 
Violão no topo da Billboard

Violão 'é a estrela brilhante do nosso segmento', diz Cabral, da Made in Brazil 
(Violão 'é a estrela brilhante do nosso segmento', diz Cabral, da Made in Brazil)
 
Não que falte demanda para uma grande produção de violões. Mesmo em tempos de música eletrônica, o instrumento é o mais vendido em todas as 22 lojas da rua Teodoro Sampaio, a meca dos músicos em São Paulo visitadas pela reportagem na tarde da última segunda-feira (6). 

"O violão está tão em alta que marcas que não faziam começaram a fazer", diz Paulo Aguiar dos Santos, vendedor na Eclipse Art e Som, de onde saem 10 violões aos sábados. "Tudo made in China. Os brasileiros são minoria." 

Na Made in Brazil, maior rede de equipamentos musicais do País,  o violão respondeu por 18% do faturamento no ano passado, ante 14,8% em 2012, fruto principalmente da busca de instrumentos de melhor qualidade, segundo Eduardo Cabral, gerente de importação da empresa.

"É a estrela brilhante do nosso segmento. A guitarra tem caído, a bateria tem caído. O violão está subindo", diz Cabral. "Não temos mais guitar heroes. O último foi o Eddie Van Halen, que acaba de completar 60 anos. Em contrapartida, se você olhar a Billboard, vê caras empunhando violões, como Ed Sheeran [britânico responsável por 59 do top 100 da revista]." 

Na música brasileira, se a MPB e a bossa nova já não são o que eram, sobra espaço para o violão - ainda que ele seja importado - nos braços dos sertanejos.
  
"O violão está sobrevivendo muito em contrapartida no sertanejo universitário. Todas as bandas hoje, absolutamente todas, usam violão. Ele e a viola caipira estão presente em todas as duplas", afirma André Mattos, da Rozini.  "[Mas] a dupla ali da frente usa mais a linha Takamine [importada]. Nosso instrumento é o do músico da banda."
  
Um dos que usam o Rozini é João Bosco, mais conhecido como "Joãozinho Violeiro", que acompanhava Inezita Barroso, apresentadora do programa de TV 'Viola, Minha Viola' e falecida em março deste ano. 

"O Takamine é excelente. Mas existem no Brasil instrumentos de qualidade à altura", afirma Joãozinho, como é conhecido.

 
(Joãozinho Violeiro)

 

(Cantora Pamella Machado na fábrica da Rozini)

Assim, além de frequentar os fundos dos palcos, o violão feito no Brasil, continua a ser marginal no mercado do País: responde por uma fatia de, no máximo, 3%, calcula Daniel Neves, presidente da Associação Brasileira de Fabricantes de Instrumentos Musicais (Anafima) e editor da revista Música e Mercado. Na Made in Brazil, as vendas de violões Rozini não são sequer representativas e a empresa não trabalha com a Clave Sonora.

Paulo Aguiar dos Santos, vendedor da rua Teodoro Sampaio: 'Tudo made in China'

(Paulo Aguiar dos Santos, vendedor da rua Teodoro Sampaio: 'Tudo made in China')

"Você não tem produção brasileira e é difícil competir com os chineses e indianos. Mercado [para os produtos brasileiros] tem, mas eles não têm preço [competitivo]. É mais fácil importar, mesmo com uma carga tributaria que chega a 80%", diz Eduardo Cabral, gerente de importação da Made in Brazil. "A gente entende o porquê de o fabricante ter virado importador."

O instrumento nacional acaba virando coisa de estrangeiro, quase um suvenir.
"É o gringo. Eles que querem o violão brasileiro", diz Alex Vasconcelos, dono da loja Vibe Music, uma pequena porta numa galeria da rua Teodoro Sampaio que expunha um Giannini fabricado no Brasil na década de 1970.
Em novembro passado, o primeiro guitarrista do The Police, Henry Padovani, esteve na rua em busca de um violão feito por aqui. Sugeriram-lhe um nacional na marca que, ele descobriu mais tarde, havia sido feito na China.
 
"Eu queria testar um violão brasileiro e havia esse que era muito bom, e eu a comprei", conta Padovani, em entrevista por telefone ao iG. "Me disseram que era brasileiro, mas posso dizer agora que a parte elétrica não era muito boa."
    
 
(Henry Padovani, guitarrista do The Police)

Cantora e compositora, Joi estava na última segunda-feira (6) na Teodoro Sampaio comprando seu segundo violão. Buscava algo parecido com o primeiro, um importado, só que menor e mais barato. Acabou levando um Rozini por acaso.

"Puxa, que ótimo!", disse, ao descobrir a procedência do instrumento. "Não é um mini Martin [marca norte-americana], mas é mais barato. A gente torce das coisas daqui."

   (Joi, Cantora e compositora brasileira)


Qualidade maior e preço menor

Na visão do setor, os culpados pelo ocaso da indústria brasileira de violões são os suspeitos de sempre: carga e complexidade tributária e custo mão de obra brasileira em comparação com a chinesa. Nos cálculos da Associação Brasileira de Música (Abemúsica) , produzir instrumentos no Brasil é três vezes mais caro do que na China.

Há, entretanto, também a responsabilidade do próprio empresário brasileiro, que, acostumado ao mercado fechado, não é ainda páreo para a invasão asiática.

"O fabricante [brasileiro] foi educado para ser o líder no bairro, na cidade. A nossa escola de negócios é muito aquém da globalização", afirma Daniel Neves, da Anafima, que reúne os fabricantes. "O brasileiro pensa que o negócio dele é vender para o Brasil, mas a maioria dos competidores deles são internacionais."

Fabio Giannini, terceira geração da família que dá nome à marca, diz ainda ter interesse em voltar a produzir no Brasil em larga escala.

 
 

"A questão de terceirização foi exclusivamente econômica, uma vez que não conseguimos concorrer com os produtos importados", afirma. "Dito isso, se tivéssemos uma política econômica que favoreça a produção nacional, com certeza aumentaríamos a nossa capacidade de produção nacional."

As chances de um renascimento da indústria nacional de violões, entretanto, são baixas, avalia Synésio Batista da Costa, presidente da Abemúsica, que representa também os importadores.
(Synésio Batista da Costa, presidente da Abemúsica)

"Eu não gosto de vender fantasia. O Brasil tomou a sua decisão. Os fabricantes tradicionais sempre poderão voltar a fabricar aqui na hora que quiserem. Mas, na fotografia de hoje, não há nenhum movimento possível nessa direção."

2 comentários :

  1. Excelente matéria! Não tenho mais o prazer de visitar lojas de instrumentos, até as lojas mais tradicionais em que se viam belos instrumentos das marcas nacionais, agora expõem instrumentos chineses, espero um dia que esse cenário mude e o governo possa enxergar a importância da cultura e da educação. Sou um apaixonado pela música e apaixonado por instrumentos, orgulhosamente coleciono violões e guitarras nacionais.

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  2. Excelente matéria (2)! Apesar de tudo isso eu penso que o problema não é simplesmente a presença de instrumentos chineses (e asiáticos no geral) no nosso território nem a concorrência com eles, mas a carga tributária que é muito alta mesmo para coisas produzidas aqui, o fato de alguns fabricantes nacionais importarem instrumentos chineses com o nome deles é apenas consequência.

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